O Conselho Federal de Contabilidade (CFC), a Academia Brasileira de Ciências Contábeis (Abracicon) e o Instituto de Auditoria Independente do Brasil (Ibracon) realizaram, entre os dias 16 e 19 de junho, em São Paulo, um ciclo de visitas institucionais às principais firmas de auditoria independente em atuação no país. A agenda integra movimento mais amplo de articulação entre as entidades da profissão contábil e deverá envolver a Fundação Brasileira de Contabilidade (FBC) nos desdobramentos relacionados à formação, à capacitação e à valorização profissional.
A agenda teve início na BDO Brasil, na terça-feira (16), e continuou com reuniões na KPMG, EY e Deloitte. A visita à PwC encerrou, na sexta-feira (19), essa etapa de escuta e aproximação institucional.
A iniciativa busca fortalecer o relacionamento entre as entidades da profissão contábil e o setor privado de auditoria, abrir espaço para a escuta de pautas das firmas e identificar agendas comuns em favor da valorização da contabilidade e da auditoria independente no Brasil.
Ao longo dos encontros, foram debatidos temas como atratividade da profissão, formação de novos talentos, saúde mental dos profissionais, atualização das diretrizes curriculares, educação continuada, qualidade da auditoria, uso de tecnologia e inteligência artificial, sustentabilidade, ambiente regulatório, articulação com o Parlamento e o Judiciário e diferenciação entre responsabilidade profissional, erro técnico, fraude, crime contábil e corrupção.
O presidente do Conselho Federal de Contabilidade, Joaquim Bezerra, destacou que a aproximação com as firmas faz parte de uma estratégia de diálogo institucional mais amplo, voltada à escuta do mercado, à identificação de pautas comuns e ao fortalecimento da profissão contábil. Segundo ele, compreender melhor os desafios enfrentados pelas firmas de auditoria contribui para uma atuação mais qualificada do Conselho, especialmente nos temas relacionados à confiança pública, à segurança regulatória e à valorização da contabilidade perante a sociedade.
“Queremos construir uma relação baseada em confiança e escuta, para entender as demandas do setor e identificar onde podemos atuar juntos, cada um dentro do seu papel. O CFC mantém sua função reguladora e fiscalizadora, mas entende que o diálogo com o mercado é essencial para fortalecer a profissão e ampliar a confiança da sociedade na contabilidade”, afirmou Joaquim.
A presidente da Abracicon e embaixadora internacional do CFC, Maria Clara Bugarim, afirmou que a agenda de aproximação com as firmas também deve ser compreendida como parte de um movimento mais amplo de valorização da profissão no Brasil e no exterior. Segundo ela, a atratividade da contabilidade está entre as preocupações globais da profissão e a formação dos novos profissionais será decisiva para reposicionar a carreira nos próximos anos.
“A atratividade da profissão é hoje uma pauta global. O Brasil tem participação importante nos debates internacionais da contabilidade e precisa transformar essa agenda em ações concretas. Pela Abracicon, nosso papel é contribuir especialmente na aproximação com a academia, apoiando a atualização dos currículos e a formação de profissionais mais preparados para as novas demandas do mercado e da sociedade”, afirmou Maria Clara.
O presidente do Ibracon, Sebastian Soares, também ressaltou a importância da atuação conjunta entre as entidades e as firmas de auditoria independente. Para ele, o diálogo institucional contribui para alinhar expectativas, fortalecer a qualidade da auditoria e ampliar a compreensão da sociedade sobre o papel do auditor independente.
“Para o Ibracon, esse diálogo é essencial para aproximar as entidades e as firmas em torno de uma agenda comum, com respeito ao papel de cada instituição. Temos desafios importantes em temas como qualidade da auditoria, educação continuada, formação de talentos e confiança pública, e a atuação conjunta pode contribuir muito para o avanço dessas pautas”, destacou Sebastian.
BDO: saúde mental e cooperação prática
Na BDO Brasil, primeira firma visitada, o presidente Raul Correia da Silva abriu espaço para discutir de forma objetiva quais seriam as expectativas do CFC em relação à aproximação com as firmas de auditoria. Em resposta, Joaquim Bezerra afirmou que a parceria deve ser construída a partir da confiança, da troca de pautas e da identificação de ações conjuntas que conectem a atuação institucional do Conselho às necessidades concretas do mercado.
Um dos pontos de destaque da reunião foi a saúde mental dos profissionais da contabilidade. O tema foi apresentado pelo sócio Adriano Correia como parte essencial da discussão sobre atratividade e permanência na profissão. Joaquim Bezerra informou que o CFC já está em articulação com o Conselho Federal de Psicologia (CFP) para estruturar um projeto voltado à saúde mental dos contadores e manifestou interesse em desenvolver ações em parceria com as firmas de auditoria.
A BDO também apresentou contribuições práticas para a agenda conjunta. Raul Correia colocou à disposição das entidades o acervo da Universidade BDO, que poderá apoiar iniciativas de capacitação profissional, e ofereceu a estrutura da firma para a realização de encontros técnicos, eventos e ações voltadas ao desenvolvimento da profissão.
KPMG: confiança institucional e formação de profissionais
Na visita à KPMG, o presidente Charles Krieck destacou que a relação entre o CFC, o Ibracon, a Abracicon e as firmas de auditoria vem sendo construída ao longo do tempo, com base em confiança e alinhamento institucional. Segundo ele, a atuação recente do CFC tem contribuído para reforçar a defesa da auditoria independente e para valorizar a profissão em momentos de maior exposição pública.
Outro ponto relevante da reunião foi a formação de profissionais para atender às demandas do mercado. Charles chamou atenção para a dificuldade das firmas em contratar contadores em quantidade e com a qualificação necessária, destacando que a KPMG já observa, na prática, movimentos de conversão de profissionais de áreas como Administração e Economia para a Contabilidade como segunda graduação.
O tema foi recebido pelo CFC como uma possível agenda de trabalho conjunto relacionada à atratividade da profissão. A proposta envolve avaliar caminhos para incentivar e facilitar a escolha da Contabilidade como segunda graduação, especialmente no contexto das discussões sobre atualização das diretrizes curriculares, educação continuada e criação de percursos formativos para profissionais que já atuam em áreas próximas à contabilidade.
EY: qualidade, integridade e valorização pública da profissão
Na EY, o presidente Luiz Sérgio Vieira Filho manifestou apoio à agenda de reposicionamento da profissão conduzida pelo CFC. Ele destacou que a contabilidade precisa superar uma percepção pública ainda limitada sobre seu papel estratégico e reforçou que a profissão deve estar ancorada em qualidade, integridade e responsabilidade técnica.
Luiz Sérgio também chamou atenção para a necessidade de valorizar o trabalho muitas vezes invisível realizado pelos profissionais da contabilidade. Para ele, a campanha de atratividade da profissão pode ganhar força ao dar visibilidade a contadores que ocupam posições estratégicas em empresas, instituições públicas, mercado financeiro, governança e outros espaços de decisão. Outra possibilidade apontada foi a identificação de interlocutores e formadores de opinião que possam falar sobre a importância da contabilidade e da atuação do contador em veículos de grande circulação, demonstrando à sociedade que a valorização da profissão não é apenas uma demanda interna da categoria, mas também uma necessidade do mercado e das organizações.
A EY também sinalizou disposição para apoiar o CFC em ações de educação continuada, capacitação técnica e construção de agendas voltadas à valorização da profissão, especialmente nos temas de qualidade, integridade, sustentabilidade, tecnologia e formação profissional.
Deloitte: enfrentamento do estigma e reposicionamento pela tecnologia e sustentabilidade
Na Deloitte, o presidente Marcelo Magalhães Fernandes agradeceu o espaço de diálogo e escuta aberto pelo CFC e afirmou que a firma e as entidades da profissão compartilham objetivos comuns em relação ao fortalecimento da contabilidade e da auditoria independente.
Um dos pontos centrais de sua contribuição foi a necessidade de enfrentar o estigma ainda associado à imagem do contador, muitas vezes retratado de forma equivocada como vinculado a fraudes ou irregularidades. Marcelo destacou que o reposicionamento da profissão também passa pela atuação firme das entidades em momentos de pressão pública, especialmente quando a cobertura midiática tende a buscar culpabilização imediata antes da adequada compreensão técnica dos fatos.
Na avaliação do CEO da Deloitte, a pauta da sustentabilidade também pode contribuir para esse reposicionamento, ao evidenciar o papel da contabilidade na produção de informações confiáveis, na transparência das organizações e na proteção do interesse público. Marcelo também apontou que a inteligência artificial e a modernização das ferramentas de trabalho podem ser utilizadas como caminhos para apresentar a contabilidade como uma profissão moderna, estratégica e conectada às novas demandas do mercado. Segundo ele, esses temas ajudam a tornar a carreira mais atrativa para as novas gerações e a reforçar o papel do contador em ambientes de maior complexidade.
PwC: confiança pública, transparência e qualidade da auditoria
A visita à PwC encerrou o ciclo de reuniões com as grandes firmas de auditoria independente. Na abertura, o presidente da PwC Brasil, Marco Castro, agradeceu a visita e reforçou a importância do diálogo com as entidades contábeis.
Marco ressaltou que a PwC compartilha a visão de que a profissão precisa de uma regulação qualificada, atuante e aberta ao diálogo, capaz de contribuir para a formação, o desenvolvimento e a valorização dos profissionais. Ele também chamou atenção para a dificuldade crescente de atrair e reter talentos na contabilidade e na auditoria, mesmo em grandes firmas, e defendeu que o contador seja apresentado à sociedade como protagonista, por seu papel essencial para as empresas, para o mercado e para a confiança pública.
Durante a reunião, representantes da PwC também defenderam que a campanha de atratividade da profissão dialogue com temas caros às novas gerações, como propósito, impacto social e contribuição para o país. Nesse sentido, pautas como integridade, transparência, prevenção a irregularidades e construção de confiança podem ajudar a apresentar a contabilidade como uma carreira estratégica e relevante para a sociedade. Também foi ressaltada a importância de comunicar melhor o papel do contador e do auditor independente, para reduzir interpretações equivocadas, enfrentar estigmas e fortalecer a percepção pública sobre a profissão.
Encaminhamentos
As contribuições colhidas nas visitas deverão subsidiar a construção de uma agenda conjunta entre CFC, Abracicon, Ibracon, FBC e firmas de auditoria independente, respeitando o papel de cada instituição. Entre os possíveis encaminhamentos estão ações de capacitação profissional, participação das firmas em iniciativas de educação continuada, apoio à campanha nacional de atratividade da profissão, indicação de temas para debates com o mercado e o Judiciário e construção de pautas institucionais voltadas à valorização da contabilidade.
A agenda também deverá contribuir para aproximar a atuação regulatória e institucional do CFC das demandas concretas do mercado, preservando a independência das entidades e o papel fiscalizador do Conselho, mas ampliando os espaços de diálogo em favor da qualidade, da confiança pública e do fortalecimento da profissão contábil no Brasil.
Por Stephanie Lacerda e Ana Paula Leitão
Comunicação CFC
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